sábado, 28 de junho de 2014

A questão dos benefícios no Budismo.

Em resposta aos que perguntaram sobre quais são os benefícios no Budismo ou o que a prática nesta fé pode trazer.
Roda do Dharma


A fim de esclarecer aos consulentes sobre o Dharma e a prática para alcançá-lo, ou seja, o que significa o conceito de benefício e quais são os verdadeiros benefícios das práticas no Budismo.
Benefícios significam méritos coletados de ações (Karma) positivas desfrutadas pelos homens em uma ou várias vidas. Porém os homens contemporâneos os confundem com a aquisição de bens materiais (posses), a satisfação dos sentidos (prazeres sensoriais, momentâneos e exagerados), o despertar dos poderes paranormais e sobrenaturais (magia ou pequenas virtudes), cura de doenças ou efeitos físicos ou a eminência da morte, o que gera como conseqüências o apego à vida e o medo da morte.
Orquídea
Os benefícios relacionados às práticas expostas pelos ensinamentos do Budha Shakyamuni são o autoconhecimento, a compaixão e o despertar das seis virtudes (paramitas)[1] – generosidade, moralidade, sabedoria prajna, paciência, diligência e concentração - e compreensão, contemplação e plena atenção aos fenômenos (internos e externos). Sendo assim, os legados mais importantes deixado pelo Buddha foram a moralidade e a sabedoria, como caminhos para a plenitude da vida e como comunhão com a essência mais sagrada da vida. Assim como fez Jesus Christos que se empenhou em ensinar os homens de sua época e de seu país, os caminhos da moralidade e do respeito, através das contemplações metafísicas das práticas dos Essênios[2] e das austeridades estóicas[3].
Os Essênios e Jesus Christos
Porém, os homens comuns se atentam para as virtudes menores, ou seja, os poderes psíquicos e mágicos e os resultados de curto prazo ligados aos valores materiais e aos sentimentos desnecessários, assim como, a valorização da avareza, da vaidade, da quantidade e do desdém aos demais. Características, estas, defendidas e vociferadas pelos adeptos da Teologia da Prosperidade e do Budismo de Resultados, como valores para “a satisfação e a glória pessoais” e sinais de “bênçãos” e “salvações”.
Mas o papel fundamental dos ensinos expostos pelos avatares eram a plenitude da vida, a temporaneidade (impermanência) e as ferramentas importantes para atingirmos/despertarmos as nossas sabedorias e as comunhões com o Dharma contido em nossas essências e em nosso caráter.
Meditação
Pois como o Buddha havia exposto, aqueles que controlam seus desejos e as suas mentes alcançam as suas verdadeiras auto-realições, diminui as dores e as amarras de suas Rodas de Sansara[4].
Desta forma os ensinos expostos têm o objetivo de religar os homens aos seus lados mais sagrados e a viverem livres de desejos, das ilusões e dos apegos. Mas que os homens comuns, a plebe, a fim de manter seu apego às ilusões, as paixões intensas e aos valores efêmeros, desprezam esta proposta e buscam a anistia, através da retórica vazia e de uma atitude momentânea e teatralizada, uma falsa moral, da qual ele exige do outro, porém se atenta para a “espetacularização da fé”, gerando assim desonestidade intelectual e social e, conseqüentemente, aprofundando suas amarras kármicas[5].
Sábios e o Dharma


Notas e referências bibliograficas:
[1] YÜN, Hsing – Budismo: conceitos fundamentais – Editora Cultura - São Paulo – S.P. – 2005 – págs. 106 à 107.
[2] Os Essênios foram uma sociedade secreta de homens reclusos dedicados aos estudos esotéricos e metafísicos, considerados como um braço judaico das Ordens Esotéricas do Egito, que por sua vez eles transmitiram seus ensinos à Jesus Christos e aos seus discípulos de confiança. Foram registrados nos Manuscritos do Mar Morto. LEWIS, H. Spencer – As Doutrinas Secretas de Jesus – Grande Loja do Brasil – 1998 – pág. 17, MEUROIS-GIVAUDAN, Anne e Daniel – O Caminho dos Essênios: A vida oculta de Cristo relembrada– Editora Objetiva - pág. 119 e TARNAS, Richard – A Epopéia do Pensamento Ocidental – Bertrand Brasil – Rio de Janeiro – R.J. – 2008 – págs. 161 e 162.
[3] Segundo os historiadores cristãos e historiadores da filosofia o Estoicismo foi o elemento helenístico que influenciou a moralidade cristã e prática da austeridade no cotidiano. TARNAS, Richard – Op. Cit– págs. 119, 137 e 162 e . MARCONDES, Danilo – Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos à Wittgenstein– Editora Jorge Zahar – Rio de Janeiro – R.J. – 2010 – pág. 92.
[4] Darmapada:Adoutrina budista em versos – L&PM Editores – Poto Alegre – R.S. – 2009 – págs. 111 à 115 e YÜN, Hsing – Budismo Puro e Simples: Comentário sobre o Sutra das Oito Percepções dos Grandes Seres – Editora Cultura - São Paulo – S.P. – 2002 – págs. 08, 51 à 53.
[5] LIVRAGA, Jorge Angel – O Alquimista: A trilha de um jovem nas ciências ocultas – Editora Nova Acropole - Brasília – D.F. – 2010 – pág. 162.

Fé, fanatismo e convicção no cenário atual. - Apesar de vivermos em uma sociedade multicultural e com várias religiões assistimos horrorizados o fenômeno cíclico do fanatismo.

Símbolos religiosos

No cenário atual, pelo menos no Brasil, a religião ou as religiosidades estão em evidência no panorama cultural. Porém as pessoas demonstram um descontentamento com as religiões em virtude das atitudes erradas e das deturpações dos conceitos originais que compõe a Religião.
Vivemos em um país que tem uma pluralidade de religiões, que buscam através de suas mensagens conectarem os homens com o divino, ou seja, sua natureza sagrada e elevada. E através destas mensagens ocorre a manifestação da fé.
Fé é acreditar em algo ou em alguma coisa e torna-se o veículo que liga os seres humanos com a centelha divina, que habita em cada um dos homens, ou seja, sua essência sagrada.
A fé é um fenômeno subjetivo que pode ser explica através da psicologia, sociologia, História Cultural e pelo Estudo Comparado das religiões.
Flôr de pessegueiro
O estudo das doutrinas e o Estudo Comparado das religiões são investigações realizadas pelos discípulos ou iniciados a fim de compreender a fé e consolida-la dentro de si, adquirindo de forma racional, intuitiva e civilizatória, a Convicção.
Ter convicção é estar seguro do caminho a ser percorrido, sempre de forma clara, calma, pacífica e tolerante. Pois o convicto tolera as diferenças aceitando-as de forma sábia, pois compreende os outros e respeita os ritmos, os espaços e as opiniões alheias.
Buddha Shakyamuni
O Buddha Shakyamuni, através de seus discursos, incentivava os discípulos e seguidores a testarem à veracidade dos ensinos pregados por ele, ou seja, os seus discípulos deveriam investigar a aplicação e as verdades daquilo o que estava sendo pregado. Assim como, solicitava aos discípulos a valorizarem os Dharmas expostos em outras linhas de pensamento.
Quem tem Convicção respeita a liberdade religiosa e agrega os ensinos bons a sua vida. Ao passo que o fanatismo, que é a raiz da tirania e da intolerância, se torna um ataque à civilização, à convivência e uma aberração aos ensinamentos expostos pelos sábios e pelos Avatares.
Liberdade religiosaAvatares
Para o fanático não há outra opinião que não a dele, torna-se impossível manter um dialogo com um fanático, pois discursa em alto volume os seus “conceitos” e escarnecendo dos seus debatentes, ou seja, não existe o dialogo, mas dois monólogos ou a imposição de idéias.
O fanático é o fruto da imposição de doutrinas deturpadas e simplificadas, somadas à castração dos processos investigativos, à ignorância, medo e preguiça mental. Dentro do fanatismo não ocorre à investigação, pois se incentiva o pouco raciocínio e o afloramento das paixões. Em virtude desses fatores muitos crimes, excomunhões, execrações, desrespeitos e escárnios são cometidos.
FanatismoVítima da intolerância religiosa
E no cenário multi-religioso tem ocorrido o fanatismo devido à ignorância e aos pensamentos tortuosos dos povos do Brasil. Porém, este fenômeno é cíclico e já ocorreu outras vezes. A única saída é buscarmos a convicção e a tolerância. Como disse uma vez no filme Ágora2: “Há mais coisas que nos une, do que nos separam”3.
Assassinato de Hipátia

Notas e referências: 
1 - Avatar (sanscrito) - Descido dos Céus.
2 - Filme de Alejandro Amenabar (2010), veio para o Brasil com otítulo de Alexandria.
3 - Frase extraída do Filme Ágora e atribuida a Hipátia de Alexandria.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Ateísmo: Uma discussão analítica sincera.

Analisemos o ateísmo como um fenômeno sócio filosófico e sejamos justos com a posição ideológica dos ateus, pois eles são necessários.  
 
O ateísmo é a descrença em Deus ou Deuses e até em sistemas religiosos ou doutrinas. Sendo, os ateus,considerados como aberrações biológicas e hereges desafiadores e desrespeitosos, em virtude de suas posições e opiniões.
Os ateus são pessoas como nós e como todo mundo, diferentes, pois apresentam uma racionalidade mais aguçada que as demais pessoas. Podemos considerar este racionalismo agudo como uma virtude que impulsiona a prática da investigação filosófico-científica.
Contudo esta investigação se apresenta comum grau significativo de falhas, em virtude da ausência de comparação nos processos de pesquisa. Sendo que os fanáticos e os fundamentalistas1, também não o fazem. Aliás, a comparação é uma heresia mortal para os fanáticos e a investigação, para eles, precisa ser superficial, irreflexiva e legitimadora dos desvios morais, intelectuais e discursivos.
Retornemos as nossas atenções sobre os ateus e o ateísmo, por refutarem as crenças, opiniões e teorias abstratas, assim como, as ações e os discursos contraditórios de crentes e fanáticos religiosos, atraíram para ele rivalidades que beiram a Santa Inquisição.
O ateísmo foi uma ideia formada entre os Séculos VI a.C e V a.C pelas escolasSankhya, Mimansa e Carvakas2 e por Diágoras3, esta ideia foi tomando força devido a separação da ciência com a religião, fornecendo através de seus métodos investigativos, o fermento para suas bases, ou seja, a ciência deu as bases concretas materiais e filosóficas para refutarem as doutrinas religiosas.
Porém, a atitude cética dos ateus os afastou de seu lado mais intuitivo e metafísico, aproximando-os do materialismo radical e do hedonismo4 aprisionando-os nas redes deMaya (ilusão).
Desta forma o ateísmo tomou força desde a antiguidade, saltando para o Renascimento, passando pelo Iluminismo e o Séc. XIX, com a Teoria do Evolucionismo, o uso indiscriminado da tecnologia e a fé inabalável na Ciência, mas a parte intuitiva e metafísica ficaram atrofiadas e sua visão de mundo resumiu-se aos fenômenos físicos, químicos e comportamentos básicos (instintivos) por parte do mundo e dos outros.
Entretanto célebres ateus, como o filosofo suíço Alain de Botton, o escritor Estadunidense Chris Stedman e o professor de Ciência Política Peter Steinberger, propõem um diálogo e posturas condizentes a fim de reforçar a posição dos ateus e do ateísmo em uma sociedade plural e livre, assim como assegurar as conquistas das Ciências nos campos da Natureza e uma aceitação maior pela diversificação de ideias e liberdade de expressão5.
Embora os ateus sejam grandes opositores das Religiões, religiosos e místicos iniciáticos, a posição deles já foi muito grande nas sociedades atuais, se tornaram importantes e necessárias, pois a função da oposição é esta: apontar e expor os erros e contradições, gerando um feedback e um postura de mudança nos atos6. Pois, a refutação é importante para os religiosos e místicos passarem a utilizar a razão, a investigação e a comparação analítica sem abandonar a fé e a sua essência intuitiva.
O ateísmo se tornou necessário para a sociedade e o seu crescimento civilizatório, porém se faz necessário abraçar e conhecer seus lados intuitivos e metafísicos sem abandonar o seu racionalismo cético que o leva a investigação.
Portanto ateus e agnósticos são pessoas que compõem o mosaico de ideias na sociedade, contribuindo com o diálogo e o progresso, pois devido as suas posturas racionais e abertas, com eles existe o diálogo, ao contrário dos fanáticos e fundamentalistas.
Notas e referências bibliográficas:
1N.A. (Nota do Autor) – Neste caso utilizaremos o termo “fundamentalista” como referencia aos adeptos que utilizam interpretações literais de suas doutrinas.
2N.A. - Escolas filosóficas védicas que rejeitavam a ideia de divindade, sendo aCarvakas mais materialista de todas.
3N.A. - Poeta e sofista grego manifestou-se contra a religião grega e os Mistérios Elêusinos.
4Hedonismo – Teoria filosófico moral que afirmava que o Prazer é o bem supremo da humanidade. Foi criado por Aristipo de Cirene ( C.435 – 335 a.C.), na Grécia. Ver MARCONDES, Danilo – Introdução a História da Filosofia: dos Pré- Socráticos a Wittengeistein – Editora Zahar – Rio de Janeiro – R.J. - Págs. 53 a 54. e TARNAS, Richard – A Epopeia do Pensamento Ocidental – Bertrand Brasil – Rio de Janeiro – R.J. - pág. 123.
5PONTES, Felipe e VENTICINQUE, Danilo – O Ateísmo “Paz e Amor” - In Revista Época nº 798 – Editora Globo – São Paulo – S.P. - págs. 58 e 60.
6COUTO, Ronaldo Costa – História Indiscreta da Ditadura e da Abertura– Brasil: 1964-1985 – Record –Rio de Janeiro – 2003– pág. 58.